#June 16, 2009 4:44 am

Caminhando ostensivamente para os Lados de Lá, o peregrino se deparará com o Cemitério dos Ingleses e, caminhando ostensivamente para o Tempo Passado, encontrará também o Valongo — recinto-leilão de compra, venda e troca de Escravos vindos d’África. Ali há, igualmente, a Necrópole dos Negros, local de enterro dos antiqüíssimos africanos perecidos. Num dos Lados, há o Porto do Rio de Janeiro. Em todas suas majestades e Penúrias, os locais supracitados podem ser descritos somente à Pena de Empédocles da Silva, célebre poeta do século Dezessete (o que sofre de Cataratas): “Flor Macabra Marrom-Ferrugem Girando Cravada nos Armazéns e Docas e Mendigos Loucos/ Gira Gira Gira e Pára.”

# 4:44 am

Que, à ocasião da Invasão dos franceses, algo de muito Peculiar se deu no pórtico de uma igreja Protestante (ignora-se qual) situada (e consigo o pórtico) nas cercanias do que hoje é o Bulevar mais psicótico da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Dotado de portentosa e mui complexa retórica, houve um capelão de nome José e de alcunha Não há sítio. Mencionado cognome deveu-se à filosofia que professava o religioso à Época. Desde o pórtico de uma igreja (que não era a Sua), Zé (como era conhecido) lecionava as extensas qualidades vantajosas do Fim dos Tempos, alegando que não haveria mais a Necessidade, a Injúria e o Nada num mundo em que não houvesse mais espaço para o Ser Homem. Zenão Al-sítio (arábico nome pelo qual passou à História da Filosofia), professava a desistência de Tudo, incluindo o Ouro, o Ópio e a Engenharia. Numa das inumeráveis Passagens da Avenida Rio Branco, há, tímido, um busto do filósofo: calvo, de três ou quatro papadas gordurosas (mesmo em pedra) e expressão assustadiça, como se esperasse ataques ornitólogos iminentes. O viandante que não sofrer nenhuma emboscada da Avenida (que costuma estar sempre de tocaia numa de suas esquinas, empunhando sua arma de escolha: o Hidrante), poderá não só admirar a estátua como palavrear com um ou dois Seguidores de Zenão, cuja seita perdura até os dias de Hoje.

# 4:42 am

Inúmeras geladeiras muito brancas, lotadas de latas e latas e latas negras e amarelas e vermelhas. Festival geométrico-cromático na barriga dos eletrodomésticos: o viandante (certamente perdido ao cruzar, descruzar e recruzar as pernas das ruelas) sentirá sede e inquietação, sentirá a Ruína do centro da cidade — sentada com seus mil Traseiros nos botequins centenários (ou bicentenários, a depender da Idade do peregrino) da Rua do Senado. Sentirá o insustentável Grau (que desce dos Céus) e seus quarenta Ladrões — doenças terminais cujo antídoto foi descoberto pelos Povos Arcaicos, perpetuado pelos Monges Cristãos e hoje escorre das bocas e mãos dos Depravados em ritos variados, como a Cópula ou o carnaval.

# 4:42 am

Ruas-crianças, de calças curtas, suspensórios: uma ou outra grita notícias do século Dezoito (o mais garboso) para vender jornais ou garrafas de leite-em-vidro. Capitaneadas pela Ouvidor, rua caminhante, coalhada quase podre, as Infantes avançam pelo Vértice da circunferência de todas as outra ruas, em frenesi atômico, furtando moedas e outros pequenos pertences. Alg’Umas se enriquecem, década a década (pouco a pouco), e constroem castelos de Vapor nas Alturas dos sobrados. Outras não se importam tanto: sentem calor no Alto Verão, e inspiram os eventuais Jorge-Amados a escreverem Capitães-das-Areias, e recebem coisas Primevas (como a primeira Bala Perdida, atirada de um canhão numa das invasões francesas ou como a primeira Loja Maçônica, de onde um Rei atirava primitivas escarradas nas mocinhas incautas, hoje substituídas por gotas potentes de Ares-Condicionados).

# 4:41 am

Despontam, na Coisa que não é o Horizonte, diversas bandeirolas multicolores: são as Embaixadas. Multipaíses dentro de um só, microcosmos do Centro do Rio de Janeiro, assim como os formigueiros são nações dentro de Nações e também as finadas Tribos indígenas e também o Planeta — República Nacional dentro do Universo, cujo ditador Eterno fez maior e melhor armado que qualquer outro. O viandante que não for brasileiro pode pedir asilo na Embaixada de seu País de origem, preenchendo e assinando previamente o devido Formulário para Incidentes Diplomáticos e/ou Incêndio de Bandeiras Alheias (ou qualquer outro Símbolo Nacional).

# 4:40 am

Não se embrenhando irrevogavelmente nos Túneis e noutras entranhas do Aterro do Flamengo, o viandante recebe duas opções em seu caminho: rumando para um dos lados, deparar-se-á com a rota para o Centro da Cidade; para o outro, com a rota que leva ao Sul. Se desprovido de bússola, o peregrino deverá refletir em termos de Direita ou de Esquerda, o que muito bem poderá confundi-lo. A parte qualquer intenção de conversão, o caminho correto para seguir os passos Deste é o da Direita, em direção ao Centro da Cidade. No entanto, rumando para a Esquerda, o viandante se deparará não só com paragens mais salutares como com a seção mais adiantada deste roteiro. Neste último caso, o viandante terá que saltar muitas páginas neste exato momento, além de ser mister também considerar a Questão social e a questão Geográfica dos Pontos Cardeais sem muita demora. Pelo tanto, é aconselhável ao peregrino que encontre o Nativo mais próximo e melhor-encarado para inquirir acerca de suas inquietações (também é aconselhável pedir a informação que o leve ao Centro da Cidade antes da opinião sobre a reforma agrária e outros Augúrios).

# 4:38 am

A fronteira final é o Mar lá ao longe e suas luzes tremelicando, derretendo. Há túneis diversos agora, que não havia antes que despejassem muita terra em cima do mar, sufocando a respiração do Mundo. O mar passa debaixo dos Carros, agora e em direções muito diversas, contraria tudo em seu mau-humor habitual de Mar aterrado-Contrariado sob Terra de Morro. Por debaixo do mar (em sua condição supracitada), passam os Túneis. Há miríade deles, labirinticamente no centro exato vive um homem, e o viandante mais perspicaz o encontrará independentemente da Era em que empreende sua jornada. Homem-espírito, melhor classificando-o (como o fazem os japoneses), que guarda os infindáveis caminhos da Orla, servo da falange de São Sebastião (na qual servem exatos 16.384 seres, de diversas cores e tamanhos e disponibilidade). Quem por ele cruza em seu caminho, é convidado ou não a tomar parte de uma duradoura partida de truco, que, dizem os historiadores (e ainda outras personalidades mais sapientes e/ou menos malditas), está em andamento há mais de dois milênios. Que se saiba, não há bônus ou ônus ao jogador eventual.

# 4:36 am

Guiando pé-ante-pé, contornando a Esquina em que há ou uma banca de jornal ou o espírito vagamundo do finado Bruxo do Cosme Velho, dar-se-á o viandante com um imenso leito de rio visto de cima. Ao rés do chão, permanece Asfalto com duas calçadas como margem, mas há terceira: verde margem alta que corre como colinas até o mar ao fundo e desemboca sucos de Clorofila nas areias da Praia a que chamam do Flamengo. É aí, à beira desse Córrego, que os edifícios, à vista de todos (e quando é Crepúsculo piscam seus muitos olhos de Medusa, razão pela qual nenhum deles se move), pescam seus moradores. Ainda assim (prova da Benevolência desses seres), quando fisgam figuras tristonhas ou desencantadas com a vida ictíica, sem ganas de morar em suas entranhas, logo se condoem, atirando-os de volta à água.

# 4:35 am

A barcarola deve gondolear cruzando a Noite, junto aos ônibus, em meio aos ônibus, no espaço mínimo entre um e outro ônibus. Esses bichos metálicos vão todos ao fim do acorde que canta essa Criatura sentada no escuro: gorda, infinitamente gorda de papas e banhas profundamente negras. Chama-se Dona Santinha, e, de vez em dia, vende livros aos passantes ou atira-lhes uma de suas tetas desnudas, o sorriso branco-amarelo de escárnio, a outra teta escondida numa tela de Picasso (talvez Guernica). Ela é quem canta de madrugada as cantigas antigas dos portugueses, os antigos donos de Dona Santinha. Ela é quem ecoa, cruzando a alta noite com as velas de Diogo Cão, navegador luso à Era de D. João II, el rey de Portugal.

Em tempos de maré baixa, quando não louca ou teta-à-vista, Dona Santinha conta histórias a quem estiver disposto ou indisposto. Ela vomita por todos: o Machado está nas cercanias, paira no ar, sobre a cabeça de todos. Evitai-o!, diz ela, e se treme as gelatinas de piche. E explica que ela mesma é testemunha da onisciência do instrumento: ele sabe, ele vê, e diz o que não quer dizer para rachar o pensamento de quem passa por ele. Ele, que está aí (e tremelica, uma teta ameaça saltar de seu sacrossanto invólucro de pano, mas não) porque houve o tempo de exílio de Diogo Cão. Por não saber além das altíssimas ciências da Carnificina, o outrora navegador se deu com os comércios da carne morta, cortadas, picadas, em postas, cubinhos… E exibia seu instrumento de escolha, arma branca de alma preta, às portas de seu Bazar: era Ele, a observar a conduta do Cosmos e a ensinar à Dona Santinha a barcarola que infla as velas e cruza quilômetros de horas até a aurora.

# 4:33 am

Se, de súbito, o viajante se dispusesse a traçar, num mapa, linhas conectando os diversos pontos de interesse apresentados neste guia, algo de figura geométrica surgiria, isto é inquestionável. Surgiria um desenho qualquer, certamente contaminado pelas imaginações de seu criador e das poucas outras figuras que se dispuseram a consultar este roteiro. Se, de outro súbito, o mesmo viajante tomasse tal desenho (em quaisquer escalas de tamanho) como uma espécie de amuleto de boa ventura, talvez realmente funcionasse, talvez como mapa astral ou talvez mesmo como proteção cósmica contra esse monstro quase sanguinário que é uma cidade qualquer e, principalmente, esta, na qual o viajante se encontra ou não no exato momento em que consulta este guia. Portanto, não é desaconselhável a prática de tal sorte de magia para prevenir crimes de toda espécie no trajeto intramunicipal, obesidade mórbida, mau-olhado ou má fortuna no jogo do bicho. No entanto, o mau-funcionamento geométrico, o cumprimento insatisfatório das promessas arcanas do desenho ou mesmo a volta-avessa de suas propriedades em direção (e contra os melhores interesses do/) ao portador são de inteira responsabilidade do mesmo.